conviva

as vezes você me encontra por acaso
me cumprimenta com um beijo
paga as contas, meu cortejo
se despede com um abraço

cogito o por que desse descaso
penso tanto que bocejo
vira as costas, passos largos, sem desejo
e pelo caminho deixa um traço

quando se dá conta do raso
ressurge num lampejo
sente o frio do azulejo
já não domina mais o espaço

calcula a situação, a deriva
sou muito compreensiva
a cabeça imersa na profundidade

quase sem perspectiva
nessa história corrosiva
sente saudade

são brancas

essas mulheres vão e voltam
usam meu corpo como suporte qualquer
a necessidade de exprimir ânsias.
são sempre melancolias,
historias frias, agonias...
quantas maravilhas.
uma rosa vira prosa,
um homem disperso vira verso.
algumas catástrofes, muitas estrofes.
desocupar, recuar, atuar e equalizar.
essas rimas pobres iludem
um tolo a curar a sofreguidão.

guerras frias

uma vez que
você se
resolve
na sua
cabeça,
resolvido
está
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click

tentar novas flores


"Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível.
Fixava vertigens.
Criei todas as festas, todos os triunfos, todos os dramas.
Tentei inventar novas flores, novos astros, novas carnes, novos idiomas."


De alguma forma enfrentar a situação,
Mesmo sabendo que o hábito da torneira é pingar.


A má compreensão de todas as respostas
As longas curvas dessa estrada crua
Todas as paixões amantes narcisistas
Em um disparo conseguem amparo


Quem fez do silêncio a saudades,
Não fez da saudades o encontro.
Quem fez do encontro o momento,
Não teve um momento de silêncio.


Toda essa altura, essa serra, essa espera...
Debaixo das nuvens cinzas o silencio se enterra,
De cima a distancia implora por uma primavera
Espera que volte e revolte.


Enfrentar a situação é encontrar num dilúvio o mar,
Mas o hábito da torneira ainda continua o mesmo.

tirania moderna

o ato de ser autor lhe concede o maior poder de todos
manda e desmanda nos discursos - estilos - sutilezas divinas
fala sobre quem o que quiser sem ter de se importar com o dia
maior regalia que já sonhara ter na vida
fazer nascer ou fazer murchar
delatar toda e qualquer tirania
em um mero conjunto de letras
com uma unica punição:
branco.

Dócil

ela quebrou uma imagem.
uma santa, engessada.
o chão refletia a luz dos postes, chovia.
aquele branco se desfez numa massa
entre as pedrinhas brilhantes da calçada.
a moça, ajoelhada, perturbada.
segurou a coroa de Maria e caiu, espatifada.
veio um homem correndo,
pegou um pedaço de gesso e desenhou seu corpo no chão
"Mulher vadia, acreditava"
ele carregou seu corpo e entrou num galpão
estendeu o corpo em cima duma mesa.
a platéia aplaudia e vibrava.
"Ainda não acabou a peça."

tempos áridos.

a respiração
no movimento,
os olhos turvos,
uma leve tontura.
aguardo as lágrimas
mas elas não saem,
desistiram, secaram.
como um espirro que...
passou
o verão foi embora.
as saudades parecem eternas,
quanto mais velhos, mais distantes
e quanto mais velha, maior é a vontade de ficar.
não sei se egoísta, se dramática, mas algo aqui dentro me impede de ir com eles.
é um sopro na boca do diafragma que eu tento disfarçar com um cigarro atrás do outro.
se ao menos eles se lembrassem de mim, soubessem da falta que me fazem, de como eu preciso deles...
neste momento devo estar embaixo de algum desses papéis, junto com as contas do banco velhas e telegramas amassados.
procuro uma forma de retomar a caminhada.
desisto, seco.

mais um desses desfocados

Sentiu vontade de voltar.
Voltou, ela deixou ele entrar.
Amou.
Dia seguinte, acordou sem saudades.
Partiu.
Quem sabe ano que vem ele volte.
Se voltar ela abre a porta de novo.
São dessas coisas que não crescem ou evoluem,
simplesmente sobrevivem as desilusões.
Mas no fundo, amam.
Tudo bem o amor existir sem paixão, sem desejo.
É carinho e eles são desamparados.
Enlouquecem.
São negros.
Entendem-se,
Estupram-se.
Frio.
As vezes fica tão gelado.
Será que o sangue corre nessa frieza? Será que pensa?
Reajusta o parafuso na cabeça mas o que quebrou foi a porca.
Ele tira mais uma foto.
Ela congela seu canto e encanto
enquanto o flash paralisa o momento,
o movimento em desencanto.
O instante, click...
"Dentro dos meus braços os abraços hão de ser milhões de abraços,
apertado assim,
colado assim,
calado assim."
Pára.
Deixa cantar.
Quando os olhos voltarem a ver poesia ela vai parar.
Mas os olhos não voltam, eles não conseguem mais olhar pra dentro.

iniciação ao drama

Escancarou na minha cara: 
este não presta, nem esse e nenhum dos outros três. 
Depois me contou sobre meu dom oculto. 
Achei mentira. O descobri.
Se fez de fácil, jogou quatro histórias no lixo. 
Se não fosse, não seria pós moderno. 
O clássico acarreta uma estrutura limiar, portanto, ama.
Mas veja bem:
nenhum amor transgride, 
qualquer amor subverte 
todo amor vende.

desfoque graduado

um deserto de sal. um reflexo. que implica em não vida. 
ele ama, ele é artísta, veicula a fotografia. 
ela vai pra sempre tentar ser poetisa.
recalcula e recompõe. 
ele é quem rouba a cor e imprime em mil posters. 
ela quer ser cantora popular, viver um parto a cada dia. 
ESTRANGULAR.
se imersos numa banheira cheia d'agua, se sufocam. 
Temos o dom - usemos, pós limiar. 
o canto é o grito e a foto o conflito, não podem amar.
no final disto, 
chega um de canto e sussurra para o outro: 
"Faz essa menina parar de brisar".


Palavras não imploram para ser escritas, 
elas se fazem existir numa construção complexa e ordinária, 
quem cria a coreografia é o que copia.
Hoje é um dia inspirado, de alegria. 
Conseguiu se concluir em poesia. 
Despede.

me furta

ele disse que era pra eu apagar todas as luzes, e me deu um copo de suco de frutas artificial de cor radioativa.
quando apaguei tudo, vi o suco brilhando no escuro e com sua luminescência me maquiei num espelho digital, que na verdade, espelhava horizontalmente a imagem que seria um dia a do meu reflexo, e curiosamente, ao mesmo tempo, lançava uma luz forte e azul num canto escuro daquela sala.
eu liguei o ventilador bem, bem forte até meu vestido colorido se mexer esquizofrenicamente, e quando me virei, ele tirou uma foto.
ele tirou uma foto.
ele tirou uma foto em preto e branco,
portanto, de nada adiantaria aquela fotografia como uma lembrança, de um momento tão colorido, diminuido...
eu em preto e branco.
é como se no fundo ele fosse só um ladrão de imagens que capturou um momento qualquer pra colorir da forma que adequar e quantas vezes quiser, hoje ou depois de alguns amanhãs.
depois de toda a minha revolta eu percebi que na verdade, tanto faz, aquele momento na verdade já foi.
pra ele foi um instante em preto e branco,
pra mim, foi um instante barulhento
e de repente uma porta batendo.

instante

flagrada num movimento constante.
estica, amassa e embaça,
qualquer ser
instante
.

ela não é obra

andré a lê em seus livros
augusto a veste como princesa
miguel a enquadra em seus planos
maurício insiste em descrevê-la em seus textos
mauro a canta nos mais belos poemas
josé a hipnotiza com as mais sublimes melodias
mas ela não é obra do acaso.

versos palavras poses e acordes,
no fundo, tudo o que ela quer:
jamais ser retratada.


Não precisa falar
Nem saber de mim
E até pra morrer
Você tem que existir