laços e jaulas

Eu já quis acreditar no efêmero, no descaso, no descarte.
Mas é inerente em mim a vontade de construir, de me sentir estável.
E o efêmero é, necessáriamente, um terreno de solo instável.
Não se constrói uma casa na areia porque a natureza derruba.
Mas no meu ponto de vista, isso não significa que eu não seja livre.
Liberdade é um abismo - isso é, justamente, se jogar no desconhecido.
Laços não são jaulas. Laços criam, jaulas limitam.
Já vivi disso e daquilo, e como ser mutável, signo aéreo, me adapto facilmente as necessidades.
Não é uma questão de se estar certo ou estar errado. 
É fluxo, motivação e movimento.
Se és água, continue a correr. Se és árvore, fortaleça-se. Se és vento, se faça sentido.
Se és carne, sangre. Se és homem, morra.
Neste momento me bastei do efêmero, a partir de agora quero construir.
Mas isso não significa que o mistério do desconhecido não esteja lá.
If you are water: run. If you are tree: grow. If you are wind: feel. If you are flesh: bleed. If you are a man, die.

se não está

das contas que peguei
no chão de fim de festa,
lembrei das minhas preces,
chorei a minha pressa
mais uma vez...
o ano começa
travamos todos essa espera
da festa que ancora o ano
janeiro fevereiro e março
foi-se em três,
e se não foi, já era.

no ócio que nada começa
velo já o que nem foi perdido...
então você se perdeu no tempo?
esse é o ano do dragão
e agora todas as quartas-feiras são de cinzas.



me deixa ser

as pessoas se contentam em ser qualquer um ou ser qualquer coisa.
melhor ser um nó ou ser um laço?
melhor ser humano ou ser palhaço?

bem marcado

a falta que aqui faço é um traço de falta sem fim
o tempo que aqui não gasto, o tanto que não penso em mim
as vezes me é difícil dizer Eu, já que esse eu exclui o outro.
não tenho culhões e sequer padrões pra condenar ninguém a ser
mas o que seria da chance se eu já a desprezasse assim?

cansa um tanto esse descaso
mas se por algum acaso você se der conta,
entender sua onda e remexer no pagode,
não se incomode em me deixar um recado,
num pedaço qualquer de papel rasgado,
na conta do bar de ontem,
sem ordem na ponta do traço.

se eu quero seu não

só um pedaço de carne de ninguém
só um pedaço de carne de ninguém
só um pedaço de carne de ninguém
só um pedaço de carne de ninguém

eu não me importo
eu ligo
eu quero
eu não

eu não me importo
se eu ligo
se eu quero
se eu não

se eu não me importo
se eu ligo
eu quero o seu não

somente pétalas

já não me restam mais
as flores que eu plantei
já não me importam mais
os homens que eu amei

somente pétalas
jogadas por alguém
de bem ou mau que quer
ser um pedaço de ninguém

fui toda pérolas
nas roupas que eu usei
e como um rouxinol
pra você eu cantei
(mmm)
sublime música
que eu mesma fiz,
pra você, então

já não me restam mais
as flores que eu plantei
somente pétalas
esquecidas por alguém

já não me lembro mais
dos homens que eu amei
de muito ou mal querer
ser a rainha de alguém


ei, passante!

pra você que é grão de areia
eu sou um coração batendo no mundo
e aqui dentro não entra poeira

no meio da rua

eles se conheceram,
ela então saiu admirada pela delicadeza.
ele saiu descontente com o descaso.
se não pensassem simplesmente voltariam juntos.

"Quando encontramos pessoas de valor, devemos pensar em como podemos ser iguais a elas. 
Quando, ao contrário, encontramos pessoas sem caráter, devemos nos voltar para o nosso interior e examinar o que se passa lá dentro."

no mar imenso

deixaria pro ano que vem...
mas uma hora ou outra todas as vontades se acumulam.

queria te ver, 
(deu uma vontade muito doída e apertada de te ver)
queria fazer o nosso filme, 
filmar a brisa do mar, ouvir as luzes flicando...
queria terminar a nossa música,
só pra ver todo mundo dançando alegremente as nossas custas
queria ter feito aquela nossa viagem,
como quando desci a rua correndo e peguei o último ônibus só pra te encontrar
queria ter escrito um livro,
com todas as poesias que já te escrevi, com todas as histórias que já inventei contigo
queria que você me olhasse,
só mais um pouco, um pouquinho, demorado, pra entender a carne absorvendo a gente
queria que você me levasse a sério,
mesmo depois de todas as nossas risadas soltas e piadas bobas,
mas já estou chegando em coisas que não cabem a mim decidir
queria não continuar querendo isso tudo,
e nem imaginar que num dia de ócio você vai vir aqui e se dar o trabalho de me ler
enquanto eu, desesperadamente, entro e releio todos os dias essas palavras, 
até encontrar com o impulso de deletar e desistir, e voltar pro zero de novo.
queria que você cansasse de ficar sozinho,
ou que me machucasse forte o suficiente pra eu nunca mais te querer.
queria que você cansasse de ficar sozinho,
e mesmo sabendo de tudo de ruim que pode acontecer no nosso caminho,
queria que você tentasse,
só um pouquinho.
queria acabar com todos esses desejos de ano novo,
e não ficar esperando a sua ligação no primeiro dia do ano.





Caetano está cantando aquela música que você me mostrou:
Quero tanto
Quero tanto
Quero tanto
Quero tanto você
Mar aberto
Mar adentro
Mar imenso
Mar intenso
Sem Cais


questiono a lembrança

ontem acordei desassossegada
a testa de suor dos sonhos incertos
caíram todas as tempestades
ruíram todos os solos
e ao acordar
todas as memórias criadas
pra justificar completo desespero.

nos traços das traças


aqui, onde as mariposas morrem em cima da mesa
o tempo é sócio do vento
aqui, onde as mariposas flanam, 
já não voam porque cairam
com a dor do ócio
do tempo fóssil
museu do vento
a sorte aqui não é contento,
a qualquer momento
vem o lembrar
se fui feliz
se foi...
como vento
se movendo
com asas batendo.