alergia

assuma o tempo em si mesmo
senão esse tempo se acaba
o tempo perdido na lacuna do outro
é como o buraco que vira uma vala

lembrar das imagens que vejo
já não me vale mais nada
saber quem produz meu desejo
a tempo de virar a página

moça

me vê um desses 'que tá em falta'?

têredêtumdê

o rapaz me encantou
quando nem era esperado
cantando aquela música
com um jeitinho todo engajado
pai,
xonei.

qualquer matéria reduzida ao pó

Os rapazes discutiam sobre a noite. Ela, desgostosa, se sentou na sarjeta.
Aquele lugar, em instantes, se tornou um ambiente assustador.
Um furacão de pessoas de todos os cantos. Passou a observar, deixar.
Olhar pra ela era como ter a certeza de que de alguma forma carrega uma tristeza no olhar.
Uma angústia que talvez ela nunca vai chegar a saber exatamente o que é.
Saber que essa coisa, que seja, está podre de alguma maneira, e é. Poeira.
Dessas que se acumulam pelos cantos, que nem o aspirador de pó limpa.
Queria de alguma forma socorre-la, mas ele tem o péssimo hábito de fazer escolhas ruins.
Lamentam juntos: a ponte quebrada na estrada, o gato atropelado, a árvore corroída.
A garrafa de cerveja quebrada, a dor nos pés, a música ruim, todo o lixo pelo chão...
Todo o lixo pelo chão, todo o lixo pelo chão.

*

eu poderia te falar as palavras mais lindas do mundo,
mas de todas elas eu escolhi uma:
volta.

sertão

ser,
tudo aquilo que supõe-se existir.
sobre ser nada ainda que a contradição palpite;
para nada ser não se pode querer,
o simples ato de ser anula o nada,
nada ou tudo aquilo que não existe, 
que sequer pode ser aquilo. 
não-espaço 
não-ser 
nada.

poeira leve

qualquer noite inigualável
não pôde ser compartilhada,
durou o tempo que teve,
fez todo o bem que me deve
e virou poeira, me leve.
mas ainda restou uma dívida:
aquele que amei de verdade,
foi quem ensinou a não amar.
e na vontade...
ficar junto...
ele só é se só.

selar

sabe o que eu gosto no lápis de cor?
é que ele pode durar pra sempre
ele pode ser lápis, de cór, cor, sempre.

três e três

três pessoas carregando uma pedra cada uma
talvez uma pedra seja mais leve que a outra,
talvez uma pessoa seja mais preguiçosa que a outra.

três pessoas carregam uma pedra juntas:
sucesso.

primeiras considerações sobre o arrebatar

Se eu partir do pressuposto então de que eu, ser pensante, vejo e percebo o mundo de forma tal que outros não percebem, e que até possa ter alguém que veja da mesma forma que eu, mas considerando o próprio ato de ver algo único, que vem de dentro pra fora, o ver além do olhar e enxergar; ver pra dentro, numa lógica abstrata e fragmentada, desatrelando o ver de qualquer signo e imagem pré-datado, transformar o ato de ver em algo mais físico, o ver como algo que constrói e destrói uma imagem pura de significação, espaço e tempo.
Posso passar, então, uma hora a olhar para um corrimão de uma escada, piscar, e não saber qual a sua cor, seu material e seu formato. 
UMA HORA 
olhar corrimão de escada piscar
Essa imagem que se cria entre a imagem dada e meus olhos, uma película transparente de reações e sinapses que ganham movimento através das vibrações do som, este, portanto, capaz de fazer imergir e submergir, para então subverter a sensação do espaço/tempo, o som como o vento que sopra, a imagem como a brisa que sinto mesmo sem ver.
o ver de dentro pra fora capaz de anular o peso da gravidade e toda a cinética.
o ato de ver como arrebatador, e por arrebatador entenda-se, ir subitamente a um espaço mental desconhecido e voltar, sem memória lógica ou óbvia do que possa ter acontecido, podendo ou não ser ligado a realidade, mas provedor de sensações incapazes de definição.
Passo uma hora em um espaço indeterminável, impassível de qualquer materialização ou descrição proveniente de uma palavra; tempo este que poderia muito bem ser dez segundos - o ponto é que o tempo é determinado pelo entorno, portanto, relativo, e no que chamo de arrebatamento a noção de tempo pode ser alongada ou diminuída, de acordo com a experiência e capacidade de abstração do eu -;

âncoras

ali, numa escuridão infinita,
seria quase uma cegueira se não fosse pelo horizonte tão nítido.
eles seguram a minha mão, mas não sei quem são, aonde pisam.
a cada passo o horizonte caminha junto.
dá pra chegar? existe um lugar?
cada braço me leva pra um lado - tudo ao mesmo tempo,
o corpo não se desmembra.
minha vontade de ir pra cima ancorada em diferentes portos, paradas.
gravidade, você me coloca pra baixo.
o mar de vozes aflitas, confusas, tempestuosas, não sei se navego ou se me afogo.
inércia.
a mente vai aonde o corpo leva.
a densidade da água me eleva.
é tudo tão escuro que não existe lembrança, saudade, imagem.
fica só uma vontade latente, pulsando, se desmembrando ferozmente.
pediram pra ela ir embora e ela foi sem deixar a calmaria.
mas o agir sem a vontade voa e se afoga.
são portos perdidos no breu de um nada,
os barcos navegam sem vento, sem água.
ainda o horizonte tão nítido e se distanciando...
acho que estou cega aqui, imaginando uma linha reta qualquer.

gelada

eu vou
morrer
afogada
numa
película
d'água

eu vou 
morrer 
afogada
numa
película 
d'água

não sei
nadar
não ser
nada
não ser
nadar
não sei
nada